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Olá! Sou Chayanne Andrade, médica Especialista em Alergia e Imunologia, com experiência há mais de 15 anos. Costumo dizer que me realizo prestando assistência médica no consultório e criando artigos para poder lhe ajudar. Seja bem-vindo(a)!

Urticária Crônica: os principais mitos que atrapalham o diagnóstico e o tratamento

Manchas vermelhas que aparecem do nada, coceira intensa, inchaço nos lábios ou pálpebras e que somem sem deixar marca, mas voltam dias depois. Se isso soa familiar, você provavelmente já ouviu as mais variadas explicações: “é estresse”, “é alergia a alimento”, “é imunidade baixa”.

A urticária crônica é uma das condições mais comuns do consultório e também uma das mais cercadas de mitos. Neste texto, vou desmontá-los um a um, com base nas diretrizes mais atuais da área.

Mas antes de falar nos mitos, o que vem a ser Urticária Crônica?

A urticária é uma doença de pele caracterizada por urticas lesões avermelhadas, elevadas, que coçam intensamente e que desaparecem em até 24 horas sem deixar cicatriz. Em alguns casos, pode vir acompanhada de angioedema, que é um inchaço mais profundo em lábios, pálpebras, língua ou garganta.

Quando esses episódios se repetem com frequência por mais de 6 semanas, a urticária é considerada crônica.

Ela pode ser de dois tipos principais:

  • Urticária crônica espontânea (UCE): as lesões surgem sem um gatilho externo identificável. É a forma mais comum.
  • Urticária crônica induzida: as lesões aparecem em resposta a um estímulo  físico específico — frio, calor, pressão, sol, suor, água ou vibração.

Uma mesma pessoa pode ter mais de um tipo ao mesmo tempo.

E os mitos? Ah, eles são muitos! Vamos aos principais:

Mito 1: "Urticária crônica é alergia"

Não é. Essa é, provavelmente, a confusão mais comum e que mais atrapalha o tratamento.

A alergia ocorre quando o sistema imunológico reage de forma exagerada a uma substância externa — um alimento, medicamento, veneno de inseto. A urticária aguda, aquela que dura menos de 6 semanas, pode até ter origem alérgica.

Já a urticária crônica especialmente a forma espontânea tem como principal causa mecanismos autoimunes e autoalérgicos: o próprio sistema imunológico produz anticorpos contra estruturas do organismo, o que desencadeia a liberação de histamina e outros mediadores inflamatórios, gerando lesões.

Mito 2: "É culpa de algum alimento — tenho que descobrir qual"

Mito!  E aqui mora um risco real: a busca obsessiva pelo “alimento culpado” pode levar a restrições alimentares desnecessárias que comprometem o estado nutricional — sem trazer nenhum benefício para a urticária.

A urticária crônica espontânea não é causada por alergia alimentar. Em alguns pacientes, alimentos ricos em histamina — como embutidos, vinho tinto, tomate, frutos do mar e queijos curados — podem piorar os sintomas, mas isso é diferente de causar a doença.

O recado prático: não corte alimentos por conta própria. Busque avaliação especializada para entender se existe ou não uma relação alimentar no seu caso.

Mito 3: "É sinal de imunidade baixa"

Pelo contrário. Urticária crônica não é sinal de imunidade baixa — é, em muitos casos, resultado de uma imunidade que está reagindo demais, de forma equivocada, contra o próprio organismo.

Esse processo, chamado de autoimunidade, envolve a produção de anticorpos contra receptores presentes nos próprios mastócitos (células da pele responsáveis por liberar histamina). Quando ativados incorretamente, esses mastócitos liberam histamina sem que haja um alérgeno externo — e surgem as lesões.

Portanto, reforçar a imunidade com suplementos, vitaminas ou produtos naturais não trata a urticária crônica. O tratamento precisa ser direcionado ao mecanismo da doença.

Mito 4: "É doença de fundo nervoso"

Não é causada por estresse — mas o estresse pode piorar. Essa distinção é importante.

A urticária crônica não tem origem emocional. Não é “coisa da cabeça”, não é ansiedade manifestada na pele e não vai embora se a pessoa “relaxar mais”. A doença tem mecanismos biológicos bem estabelecidos.

O que acontece, de fato, é que o estresse e a ansiedade podem intensificar as crises em quem já tem a doença. Isso ocorre porque o sistema nervoso influencia a atividade dos mastócitos — mas isso é consequência, não causa.

Mito 5: "Corticoide é o melhor tratamento"

Não. O corticoide (cortisona) não é o tratamento de escolha para urticária crônica — e seu uso prolongado pode trazer consequências sérias, como alteração de peso, pressão arterial, glicemia, ossos e imunidade.

O tratamento de primeira linha, segundo as principais diretrizes internacionais e nacionais, são os antialérgicos de segunda geração — como loratadina, desloratadina, fexofenadina, bilastina e levocetirizina — em doses que podem chegar a até quatro vezes a dose habitual, sempre com orientação médica.

O corticoide oral pode ser indicado apenas em crises agudas e por períodos curtos, de até 10 dias. Não é tratamento de manutenção.

Quando o antialérgico não é suficiente, mesmo em doses altas, existem opções modernas e eficazes: os imunobiológicos — anticorpos monoclonais que atuam diretamente no mecanismo da doença, com excelente perfil de segurança e resultados expressivos em qualidade de vida. 

Mito 6: "Quando a pele está boa, pode parar o remédio"

Não — ao menos não sem orientação médica. Essa é uma das razões mais comuns de recaída.

O tratamento contínuo com antialérgico tem exatamente o objetivo de manter a coceira controlada e prevenir o surgimento de novas lesões e coceira. Parar por conta própria, mesmo quando a pele parece curada, frequentemente resulta no retorno das crises.

A decisão de reduzir ou suspender o antialérgico deve ser tomada com o médico, de forma gradual e monitorada.

Mito 7: "Urticária crônica é contagiosa"

Não é. A urticária crônica não se transmite de pessoa para pessoa. Ela não é uma infecção, não é causada por fungo, vírus ou bactéria — e o contato com quem tem a doença não oferece nenhum risco.

Vale um esclarecimento: infecções podem desencadear urticária aguda, principalmente em crianças. Mas isso é diferente: a infecção é um gatilho temporário, não a causa crônica da doença.

Mito 8: "Existe um exame que confirma o diagnóstico"

Não existe um exame específico para urticária crônica. O diagnóstico é clínico — feito pelo médico a partir da história do paciente, das características das lesões, do tempo de evolução e da ausência de outras causas.

Exames complementares podem ser solicitados em alguns casos, mas com objetivo de investigar possíveis doenças associadas ou identificar gatilhos específicos — não para “confirmar” a urticária.

A urticária induzida pode ser investigada com testes específicos para cada estímulo (frio, calor, pressão, etc.), sempre em ambiente especializado, pois esses testes podem provocar reações.

O recado prático: não é porque “todos os exames deram normal” que sua urticária não existe. Ela é real, tem diagnóstico clínico estabelecido e tratamento eficaz.

Mito 9: "Urticária crônica deixa cicatriz"

Não. As urticas — as lesões elevadas e avermelhadas características da urticária — desaparecem completamente em até 24 horas, sem deixar marcas, manchas ou cicatrizes.

Se uma lesão persistir por mais de 24 horas no mesmo lugar ou deixar uma marca, isso pode indicar outro diagnóstico que precisa ser investigado, como a urticária vasculítica.

Mito 10: "Quem tem urticária crônica espontânea pode ter anafilaxia"

Em geral, não. A urticária crônica espontânea, por si só, não está associada ao risco de anafilaxia. Isso é algo que costuma gerar ansiedade desnecessária nos pacientes.

No entanto, algumas formas de urticária crônica induzida — como a urticária ao frio, ao calor, por exercício ou colinérgica — podem, em situações específicas, evoluir para reações mais graves. Nesses casos, o médico deve orientar individualmente sobre os cuidados e, quando indicado, sobre o uso de adrenalina autoinjetável.

O que realmente importa saber sobre urticária crônica

A urticária crônica é uma doença real, com base biológica estabelecida, que afeta profundamente a qualidade de vida — o sono, o humor, a autoestima e as relações sociais.

Muitas pessoas sofrem em silêncio por anos, sem diagnóstico correto, tentando dietas, remédios caseiros e cortisona de forma indiscriminada. Isso tem solução — e começa pelo diagnóstico correto com um especialista.

Com o tratamento adequado, a grande maioria dos pacientes consegue controlar a doença e viver bem. Não é cura, mas é qualidade de vida real — e isso é muito.

Procure avaliação especializada se você tiver:

  • Lesões avermelhadas e com coceira que aparecem e somem repetidamente;
  • Episódios que se repetem por mais de 6 semanas;
  • Inchaço em lábios, pálpebras, língua ou garganta[
  • Sintomas que interferem no sono ou nas atividades do dia a dia[
  • Uso frequente de corticoide ou antialérgico antigo sem melhora sustentada.

 

Dra. Chayanne Andrade — CRM SP 133673 | RQE 86705 Alergista e Imunologista | Membro da ASBAI e da EACCI 

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